A importância do exercício físico na Diabetes by Inês Abrantes

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Está comprovado que a prática de exercício físico traz vários benefícios aos portadores de Diabetes. Associado a um regime de alimentação saudável, este comportamento é suficiente para que a doença seja retardada e/ou evitada. Além disso, permite mantê-la controlada depois do diagnóstico.

Até aos dias de hoje, não foi descoberta uma cura para a Diabetes. Contudo, sabe-se que a doença está intimamente ligada a maus hábitos alimentares e ao estilo de vida sedentário.

Considerada uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde, o número de portadores desta doença tem crescido em Portugal, bem como em todo o mundo. A sua presença pode provocar uma deterioração da qualidade de vida. No entanto, os avanços da Ciência permitem que, hoje em dia, os doentes vivam uma vida perfeitamente normal.

Ainda assim, é importante salientar que sem acompanhamento médico ou cuidados de saúde a Diabetes pode provocar a morte precoce.

O que é a Diabetes?

A Diabetes é uma doença crónica que resulta numa quantidade de glicose no sangue muito elevada. Estes níveis estão associados à ingestão de qualquer tipo de hidratos de carbono (amido, frutas, leite, açúcar, etc.). Devem-se também à ineficácia do pâncreas em produzir quantidade suficiente de insulina para coincidir com os alimentos ingeridos. Assim, esta hormona não consegue conduzir a glicose (energia) às células, para que estas executem as suas funções.

Os níveis de glicemia recomendados pelos médicos para pessoas saudáveis situam-se entre os 80 e os 140 mg/dl. Estes valores variam consoante se trate de um período pré ou pós-refeição.

Quais os principais tipos de Diabetes?

A Diabetes Tipo 1 (DT1), também conhecida como diabetes insulinodependente, é a forma mais rara da doença. O seu diagnóstico acontece após um processo rápido de disfunção ou destruição das células beta do pâncreas. São estas células endócrinas que sintetizam e segregam insulina, uma hormona responsável pela regulação dos níveis de glicose no sangue

A doença é idiopática, isto é, não são conhecidos na totalidade os motivos que estão na origem deste processo. No entanto, sabe-se que é o sistema imunitário de cada indivíduo que ataca e destrói as células beta. Consequentemente, vão sendo criados anticorpos contra o próprio organismo, comportamento mais conhecido por autoimunidade ou processo autoimune.

A Diabetes Tipo 2 (DT2) é causada por um desequilíbrio na produção de insulina pelo pâncreas, provocado pela diminuição das células beta ao longo do tempo. Este processo aumenta proporcionalmente a resistência à insulina por parte do paciente. Esta variante está geralmente associada ao consumo excessivo de açúcar. Para além disso, outros fatores de risco como obesidade, sedentarismo e predisposição genética podem estar na sua origem.

Por fim, uma terceira variante da doença acontece durante o período de gravidez: é a chamada Diabetes Gestacional. Apesar de poder surgir ao longo dos nove meses, é mais comum no segundo e terceiro trimestres. Durante a gravidez, o feto exige à grávida a segregação de uma maior quantidade de insulina. Esta variante da doença surge pela incapacidade do pâncreas de produzir a hormona em quantidade suficiente.

Normalmente, a diabetes gestacional desaparece depois de o bebé nascer. No entanto, o seu surgimento duplica a probabilidade de a mulher vir a desenvolver Diabetes Tipo 2 no futuro.

Quais os principais sintomas da Diabetes?

O surgimento da Diabetes Tipo 1 é bastante nítido, pois de repente deixa de existir insulina no organismo. Já no caso da Diabetes Tipo 2, esta hormona vai gradualmente deixando de existir em quantidade suficiente ou, de alguma forma, passa a não conseguir atuar. Porém, isto acontece de uma forma mais silenciosa.

Quer numa situação, quer na outra, o açúcar (glicose) acumula-se no sangue, resultando em hiperglicemia. Como consequência, podem verificar-se alguns dos seguintes sintomas:

  • Necessidade de urinar frequentemente;
  • Sensação de sede constante e boca seca;
  • Apetite constante e dificuldade de saciamento;
  • Falta de energia;
  • Comichões generalizadas, em especial na região dos genitais;
  • Problemas ao nível da visão.

Qual a prevalência da Diabetes em Portugal?

Dados do Serviço Nacional de Saúde referentes a 2017 indicam que, em Portugal, existe um milhão de portadores da doença entre os 20 e os 79 anos. Falando especificamente da Diabetes Tipo 2, 44% dos pacientes não sabem que são diabéticos. Trata-se de uma condição silenciosa na qual os primeiros sintomas só se manifestam quando o estado já está avançado.

Já a variante Tipo 1 é mais conhecida como “a Diabetes dos jovens”. Em 2015, segundo a Direção-Geral da Saúde, afetava 3.327 indivíduos até aos 19 anos. Os números têm-se mantido estáveis nos últimos anos.

Relativamente à Diabetes Gestacional, os dados – também de 2015 – indicavam que a doença afetava 7,2% das gestantes. Verificou-se, igualmente, uma relação de proporcionalidade direta entre a ocorrência deste tipo de Diabetes e a idade da mulher grávida.

Complicações decorrentes da Diabetes

Cerca de 40% da população com Diabetes tende a desenvolver complicações tardias associadas à doença. As mais comuns são a perturbação ao nível dos vasos sanguíneos e dos nervos (os pés estão entre as zonas mais afetadas), distúrbios sexuais, episódios infeciosos e problemas de cicatrização.

Meios de controlo da doença

A prevenção e o tratamento da Diabetes estão assentes em 4 pontos fundamentais que ajudam a melhorar o controlo metabólico. O seu conhecimento e aplicação permitem atrasar ou até mesmo evitar complicações crónicas associadas à doença.

  1. Conhecer extremamente bem a doença. O principal fator de sucesso no tratamento é o nível de responsabilidade com que o paciente encara o seu próprio controlo;
  2. Ter capacidade de controlar eficazmente os seus níveis de glicemia. Os pacientes com DT1 têm que cumprir um tratamento à base de insulina, através de injeção subcutânea(insulinoterapia). Já os indivíduos com DT2 podem controlar os seus níveis através de antidiabéticos orais e/ou insulina;
  3. Seguir uma alimentaçãoque esteja de acordo com o cumprimento dos objetivos delineados, entre os quais o controlo do nível de glicose no sangue, colesterol e triglicerídeos. Além disso, é importante atingir e manter um peso equilibrado e adotar um estilo de vida saudável;
  4. Reconhecer o papel extremamente importante do exercício físicono controlo da Diabetes e na prevenção das complicações associadas. De ressaltar que a atividade física diminui a resistência à insulina e estimula a sua produção.

A Diabetes, o excesso de peso e a atividade física

Existe uma relação entre o Índice de Massa Corporal (IMC) acima dos indicadores normais (18,5 a 24,9) e a Diabetes Tipo 2. Na verdade, cerca de 90% da população que padece da doença apresenta excesso de peso ou obesidade.

A prevalência deste tipo de Diabetes verifica-se em pessoas com IMC superior a 30. Este valor é cerca de quatro vezes superior ao das pessoas que se encontram dentro dos indicadores normais.
A prática de exercício físico regular tem sempre um papel positivo no controlo da Diabetes. Esta rotina potencia a segregação de insulina e apoia o seu transporte até às células. Além disso, auxilia na redução de peso e na melhoria dos valores do IMC.

Há alguns aspetos que todos os diabéticos (em especial os de tipo 1) devem ter em atenção:

  • Necessidade de adotar, de forma geral, uma alimentação saudável;
  • Intensidade e duração do exercício físico;
  • Níveis de insulina em circulação;
  • Ingestão dos alimentos necessários antes e durante o exercício. Descuidos podem provocar baixas de glicemia ou o aparecimento de corpos cetónicos no sangue, que fornecem energia às células.

Fatores a ter em conta antes de iniciar a atividade física

Cada indivíduo é único! A minha experiência como Personal Trainer diz-me que, quando se fala em exercício físico, mais único se torna, quer tenha ou não Diabetes.

É do conhecimento geral que o exercício físico contribui para uma parte do tão desejado “estilo de vida saudável”. No entanto, um diabético deve saber fazer os ajustes necessários avaliando a glicemia antes de iniciar o exercício. Mas também deve controlar os níveis a cada 45-60 minutos e no final da atividade.

A hipoglicemia pode surgir até 12 a 14 horas após o término da atividade física. Desta forma, mais do que estar alerta para este facto, o desportista deve fazer os ajustes necessários para que tal seja evitado. Todo o processo deve ser previamente definido pela equipa médica.

A atividade física não deve ser iniciada quando o diabético apresenta um nível de glicose inferior a 90mg/dl no sangue. Da mesma forma, também não o deve fazer com níveis muito elevados de glicose no sangue, com a existência de corpos cetónicos positivos.

Tudo isto pode ser verificado a qualquer momento pelo portador da doença através do seu glucómetro pessoal. Para isso, basta fazer um teste de glicemia capilar (vulgo picada no dedo).

A minha experiência enquanto diabética e desportista

Vivo com Diabetes Tipo 1 há quase cinco anos. Formei-me em Exercício Físico depois de ter descoberto esta doença crónica.

No meu caso, o treino de força é o que melhor resulta para o controlo da doença, pelo seu efeito regulador a longo prazo. Os benefícios são o aumento da sensibilidade à insulina, assim como a captação de glicose pelo músculo.

Muitas vezes, durante o treino, os níveis de glicose chegam a aumentar devido à produção de outras hormonas, como a adrenalina e o cortisol. No entanto, no período pós-treino, mantêm-se muito mais controlados do que quando realizo um treino cardiorrespiratório. Neste caso, verifica-se uma diminuição da glicemia a curto prazo, mas tende a subir após o exercício.

Apesar de existirem evidências científicas que comprovam o efeito benéfico dos vários tipos de treino de força para o controlo da Diabetes, isto é o que acontece comigo. Por isso, cada pessoa deve ser acompanhada por um especialista em exercício físico, que defina o tipo de treino que melhor se adequa aos seus objetivos.


Se tem Diabetes, nunca deve esconder de ninguém a sua doença. Isto não é uma sentença! Tudo se controla e temos várias provas vivas de que não nos limita em absolutamente nada.

Bons treinos!

Inês Abrantes Inês Abrantes

 


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